O militante ateu e filósofo Sam Harris, 44 anos, norte-americano, é autor do texto abaixo, reproduzido na íntegra.
Recebi o artigo numa newsletter do saite do sempre agitadíssimo Sam.
A tradução é de pessoa amiga e leitora deste Blogracio.
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“Em alguns pontos, ao aproximar-nos da extremidade da maldade humana, torna-se difícil, e talvez sem sentido, realizar distinções éticas. Entretanto, eu não consigo afastar o sentimento de que detonar uma enorme bomba no centro de uma cidade pacífica com a intenção de matar várias pessoas inocentes fosse a menor das transgressões de Anders Behring Breivik na semana passada. Parece-me que isto requereu maior malignidade, e ainda menos humanidade, para planejar esta atrocidade como mero passatempo, de forma a depois cometer aproximadamente cem assassinatos na pequena ilha de Utoya, mais tarde no mesmo dia.
E, justamente quando se pensou que a mente humana não podia ser mais corrompida, detalhes são conhecidos, tais como:
Após matar várias pessoas em uma parte da ilha, ele seguiu para a outra, e, vestido em seu uniforme policial, calmamente convenceu as crianças lá amontoadas que sua intenção era salvá-las. Quando elas saíram do abrigo, ele atirou de novo e de novo. (“Para Jovens Campistas, Ilhas Transformadas em Armadilha Fatal.” The New York Times, 23/07/2011)
Outros fatos desencontrados certamente virão à tona nas próximas semanas. Alguns poderão até mesmo ser justificativas vagas. Será Breivik um doente mental? Julgando a partir do seu comportamento, é difícil imaginar uma definição de “sanidade” que se aplicaria a ele.
Já foi amplamente noticiado que Breivik é um “fundamentalista Cristão”. Tendo lido partes de seu manifesto de 1500 páginas (2083: Uma Declaração de Independência Européia), devo dizer que tenho minhas dúvidas. Estas não parecem ser reflexões de um Cristão completamente leal:
Não vou fingir que sou uma pessoa muito religiosa, pois isto seria uma mentira. Sempre fui muito pragmático e influenciado por um ambiente secular. No passado, lembro que costumava pensar;
“Religião é uma muleta para pessoas fracas. Qual o objetivo de se acreditar em um poder maior se você tem confiança em você mesmo!? Patético.”
Talvez isto seja verdade para muitos casos. A religião é uma muleta para muitas pessoas fracas, e muitos adotam a religião por motivos de utilização pessoal, como uma fonte para retirada de força mental (para suprir seu fraco estado emocional, perante, por exemplo, situações de doença, morte, pobreza, etc.). Como não sou hipócrita, digo diretamente que este é também o meu caso. Entretanto, eu ainda não senti necessidade de pedir a Deus por forças, ainda… Mas eu estou certo de que irei rezar a Deus enquanto estiver correndo por minha cidade, armas descarregando, e 100 sistemas protetores armados me perseguindo com a intenção de parar e/ou matar. Eu sei que a chance de que eu morra durante a operação é maior do que 80%, visto que não tenho intenção de me entregar a eles até que eu tenha completado todos os três objetivos primários E a missão bônus. Quando eu iniciar (considerando que eu não tenha sido apreendido antes) há 70% de chance de que irei completar o primeiro objetivo, 40% o segundo, 20% o terceiro e menos de 5% de probabilidade de completar a missão bônus. É provável que eu reze a Deus por forças em algum ponto durante a operação, como penso que a maioria das pessoas nesta situação faria… Se rezar for servir como um impulso/calmante mental adicional, é a coisa mais pragmática a se fazer. Eu acho que vou descobrir… Se há um Deus eu vou poder entrar no céu da mesma forma que outros mártires da Igreja entraram no passado.
Tendo lido somente partes deste documento, não posso afirmar quais indícios de um motivo religioso mais profundo aparecem em qualquer outro lugar do mesmo. Apesar disso, as passagens acima parecem arruinar qualquer sugestão de que Breivik é um fundamentalista Cristão no sentido comum. O que não se pode ter dúvida, entretanto, é de que o objetivo explícito de Breivik era punir os liberais Europeus por sua timidez fronte ao Islã.
Já escrevi muito sobre a ameaça que o Islã apresenta para sociedades abertas, mas fico feliz em dizer que aparentemente Breivik nunca ouviu falar de mim. Entretanto, ele já compilou as opiniões de vários autores que compartilham minhas preocupações gerais – Theodore Dalrymple, Robert D. Kaplan, Lee Harris, Ibn Warraq, Bernard Lewis, Andrew Bostom, Robert Spencer, Walid Shoebat, Daniel Pipes, Bat Ye’or, Mark Steyn, Samuel Huntington, et al. Ele até mesmo escolher meu amigo e colega de trabalho Ayaan Hirsi Ali para orações especiais, citando repetidamente uma blogueira que imagina merecer o Prêmio Nobel da Paz. Com um amigo como Breivik, ninguém ia querer um inimigo.
Pode-se somente esperar que o horror e a indignidade provocados pelo comportamento de Breivik irão moderar o entusiasmo crescente pelo nacionalismo racista da ala direita na Europa. Porém, é temida a conseqüência de outra questão: Estamos compelidos a ouvir muitas conversas iludidas sobre os perigos da “Islamofobia” e sobre a necessidade de se referir à ameaça de “terrorismo” em termos puramente genéricos.
A emergência do terrorismo “Cristão” na Europa não influencia em absolutamente nada para dizimar ou simplificar o problema do Islã – sua repressão das mulheres, sua hostilidade em relação a liberdade de expressão, e seu acessível e freqüente refúgio para ameaças e violência. O Islã permanece a religião mais retrógrada e prejudicialmente comportada da terra. E a ironia final da vida desprezível de Breivik é que ele fez aquela verdade ainda mais difícil de se comentar.”
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Sam Harris é autor dos seguinte bestsellers do New York Times: O Fim da Fé, Carta para uma Nação Cristã e O Panorama Moral. O Fim da Fé ganhou o prêmio 2005 PEN Award for Nonfiction.
Sam Harris – 24/7/11